Entre as curvas do letreiro de neon vermelho, ela enxergou um par de olhos negros. Toda a luz do letreiro morria naqueles olhos opacos e completamente negros. Nada de branco, nada de rajado, como se só fosse pupila, todo entrada; e nem suspeita de alma que saísse dali.¶ Na rua, entre amigos, ela tratou de ignorar os olhos e fez o que pode para mantê-los afastados do pensamento e se divertir. Mais tarde, no metrô, ainda bêbada, os olhos voltaram, perseguiram-na até em casa, e atrapalharam seu sono.¶ No dia seguinte, ela já não tinha mais certeza do que vira entre as luzes de neon, entre os goles do Duelo que levara escondido no bolso do sobretudo para dentro da balada, e entre os sonhos saltitantes daquela manhã. Não sabia se realmente tinha visto algo - acordada ou dormindo; e, se tinha mesmo visto, já não saberia dizer se eram olhos - os dois círculos negros.¶ Persistia, ainda, uma presença. Como se, consumidas as luzes do letreiro, passasse ela, agora, a ser consumida.